A primeira coisa que comprou foi um grelhador. Há lá coisa melhor que um belo naco de carne grelhada! O sítio era perfeito, uma casinha pequena no alto de um monte com uma vista a perder de vista montes e vales, casarios distantes, a serra ao fundo e o grelhador ao centro. Uns chapéus-de-sol brancos, umas espreguiçadeiras, um
frappé e um grelhador na sombra de um choupo frondoso.
A casinha pequena foi crescendo, tornou-se numa casa grande e de uma casa grande nasceu um enorme casarão. O grelhador foi substituído por um
barbecue, daqueles com uma grande chaminé, que parecem uma casa em miniatura, com armários e prateleiras, alçapões e janelas. A família cresceu. O minúsculo tanque de rega deu lugar a uma enorme piscina espelho de água azul-céu, ladeada por um bonito
deck de madeira exótica corrida.
Nada melhor que o almoço de sábado. Peixes vários, enchidos locais e de terras distantes, carnes de todas as espécies passeavam pelo grelhador e saíam apetitosamente douradas, a brilhar suculentas nos pratos. As crianças corriam pelos campos e as garrafas estupidamente geladas no
frappé matavam a sede oportuna que o sal das carnes ou dos peixes deliciosos deixavam na boca. A vida era perfeita. De um grelhador tinha nascido uma magnífica casa de campo onde a semana, a papelada e as chatices não entravam. E se calhava um qualquer assunto menos próprio vir à baila, em meia dúzia de minutos se desvanecia crepitando no grelhador sempre aceso.
De maneira que quando ela lhe confessou que estava a ficar cansada de tantos grelhados e que além do mais os grelhados afinal não seriam muito saudáveis, pois as aminas heterocíclicas – um tipo de composto que se forma nas carnes vermelhas, nas aves e no peixe de churrasco – explicava, estavam na lista de carcinogéneos (ela sempre fora exímia a desmanchar prazeres com martelos pneumáticos da ciência) ele olhou-a com ar desconfiado. Já não era a primeira vez que ela torcia o nariz aos almoços de sábado em volta do grelhador. Há já algum tempo que ela lhe falava dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, um outro grupo de químicos que, afirmava, também surgem na carne cozinhada sobre brasas de carvão. Era sempre a meio do churrasco, quando o que se diz ainda não se consegue dissolver no que se bebeu e a coisa deixava de saber como dantes. Por diversas vezes e sempre que ele suspeitava que a conversa corria o risco de descambar para os tais carbonos hidrociclíclos ou lá o que eram levantava-se bruscamente e avançava para o grelhador revolver as brasas, espicaçar nervosamente o lume, ou então ia à cozinha, fingindo que se esquecera de algo deveras importante.
Incomodado, procurava então informação que pudesse esgrimir tais estocadas assassinas do seu bem-estar. Ficou relativamente contente quando verificou que as aminas heterocíclicas são criadas quando a creatinina, um aminoácido encontrado na carne, se decompõe com as altas temperaturas. Podem formar-se de facto nos bifes dele ou nas suas bifanas quer estivesse a grelhar, como a assar nas brasas ou a fritar na frigideira. Ora o mundo é que está torto e tudo nos faz mal, de uma maneira ou de outra. A dose faz o veneno, já dizia Paracelsus... Havia de lhe referir exactamente isto de uma próxima vez. Mas a alegria foi sol de pouca dura e o argumento revelou-se-lhe frágil e ignorante, como aliás ela própria o apelidou impiedosamente, entre umas garfadas de salada e um gole de vinho.
Sempre que tinha tempo ele continuava então a sua senda de investigador, apostado em derrotar essas teorias infames e demonstrar que o seu estilo de vida era tudo menos ignorante. O problema era que quanto mais lia e estudava mais preocupado ficava. Agora deparava-se com os resultados de um grande estudo epidemiológico do National Cancer Institute sobre o cancro do cólon-rectal que demonstravam, preto no branco para quem soubesse ler, que as possibilidades de a doença se desenvolver estavam estreitamente ligadas ao consumo de carne vermelha, em especial quando grelhada ou bem passada (ainda bem que ele gostava de mal-passada). Quem comia carne grelhada ou assada no churrasco duplica o risco de desenvolver cancro pancreático. Merda! Exclamou. Depois e ainda assim havia um conjunto imenso de recomendações sobre como fazer a carne (para quem fosse doido suficiente!) passando-a primeiro pelo microondas, depois marinada horas a fio em vinagres e limão e por fim envolta em prata perfurada, para que não se expusesse aos fumos. Ah! E nunca usar azeites, óleos ou outras gorduras que pudessem de alguma forma atear o fogo pingando gordura. O ideal seriam carnes magras, bifitos fininhos, tiritas secas sensaboronas e sem ponta de gordura, enfim uma pôrra sem pé nem cu nem bico...
Foram uns dias duros, os que se sucederam a estas descobertas. Uma casa inteira, uma quintarola construída à volta de um grelhador, uma família que tinha crescido alegre com um grelhador ao centro, uma vida feliz e agora isto...
Não faz sentido, acabou por concluir.
Os papéis de divórcio entraram poucos dias depois.
Hoje, sábado, lá está ele na sua herdade entre os choupos, sentado à mesa sobre o guarda-sol branco, com a vista a perder de vista sobre os montes e vales, casarios distantes, a serra ao fundo e o
barbecue ao centro. Uma Alvarinho geladamente solícita aguarda a sua vez, meio inclinada dentro do frappé e ele debate-se deliciado com um belo naco de lombo Angus.
Caraças se não havia de ser feliz, ignorante seja, mas feliz!