Who the fuck is Michael Jackson?

Dear dear Farrah Fawcett,

Ah, minha querida Farrah... nem sabe por quantas vezes na minha saudosa juventude, e porque não dizê-lo, meninice até, a Farrah, ainda anjinha de carlitos, aloirou em lume brando o refogado dos meus sonhos... Ah, Farrah Farrah!

Hoje, não posso deixar de lhe perdoar Farrah, apesar do seu forte contributo para o desgaste do planeta, pelas litradas de água e detergente das lavagens dos lençóis da minha e de todas as camas por essas noites dentro.

Ah, Farrah Farrah,

Mais difícil, minha querida adorável e agora desaparecida Farrah, vai ser relevar o facto de, à excepção dessas, apesar de tudo numerosas poluções nocturnas, nunca termos tido a real oportunidade da Farrah cumprir adequadamente esse seu primeiro nome comigo!

Disso minha querida Farrah, guardarei uma imensa dor à qual, estou seguro, me será muito penoso habituar.

Farrah, eterna saudade.

Igualdade

Hospital de Sta. Maria, elevador de carga, de macas. Entram dois estudantes de medicina, seus livros e batas debaixo dos braços. Entra um interno altivo, engomado e perfumado com o seu merecido estetoscópio reluzente ao pescoço. Entram duas enfermeiras enxutas e aos cochichos que no espaço exíguo decidem calar, e uma mãe com uma criança pela mão. Por fim entra uma maca com um moribundo de garrafa de soro que a enfermeira segura como se fosse um balão de Sto. António. As pessoas apertam-se, dão-se o espaço possível. Fecham-se as portas devagar. O elevador começa a subir, lento, muito lento. No ar apenas o miar no respirar do moribundo. O elevador continua a sua lenta ascensão mas de repente soluça e pára. Mesmo entre dois pisos. Silêncio. Passam uns segundos e ainda mais silêncio. Nem o tal gato na respiração do acamado, nada! Nada a não ser o calor súbito das lâmpadas, das pessoas. Silêncio. Um silêncio denso como o silêncio que se sucede logo após uma tragédia. Espera-se um novo impulso do elevador, as pessoas entreolham-se fixam-se no tecto, impacientam-se e reparam nas paredes, nos avisos colados a fita-cola. Um suspiro anónimo. A criancinha então levanta a cabeça e diz, inaugurando o silêncio:
- A minha mãe bate no meu pai!

Julio

- Ola, mi nombre es Julio, soy Paraguayo e estoy aquí para pedir la mano de su hija!
- Para quê?
-...guayo, Paraguayo!

Nélia

Ainda antes do sexo ignorante, que tão destacadamente venceu o concurso, embora eu suspeite de fraude eleitoral...

Hoje em dia uma meretriz pode não se distinguir de uma outra mulher qualquer. Hoje, felizmente e à parte desenvolver uma actividade não regulamentada, livre de impostos e não devidamente acompanhada em termos de saúde pública o que é pena, uma puta pode não se distinguir de outra mulher. Primeiro porque o conceito se alargou e depois porque a democracia da Zara veio facilitar a coisa e ainda bem para todos, para a Zara, para as putas, para todos e para a democracia.
Mas há muitos, muitos anos – 25 anos podem parecer muitos anos – não era assim. Uma puta cheirava à légua. Não que, coitada, tivesse qualquer marca distintiva, apenas se desviava da tal linha cinzenta com a qual nos cosiamos todos. Eramos uns tipos merdosos, muito macambúzios. Sofriamos de uma normopatia crónica e apesar de nos acharmos muito distantes da velha senhora não estávamos. Um guarda nocturno ainda tresandava. Um inspector da polícia parecia deixar rasto, um empresário intrujão só não se notava porque não interessava que se notasse, mas ele ali andava a brilhar dia e noite.

Numa discoteca em Lisboa que ficava no 7.º andar de um prédio e que estava na moda na altura – AdLib - ao passarmos decididos pela portaria, o porteiro abordou-nos e segurando um de nós pelo braço, sussurra que nos deixaria subir a todos, mas que lamentavelmente e quanto à – e hesitou uns breves instantes sobre o que lhe haveria de chamar, acabando visivelmente por condescender embora de olhos semicerrados – senhora, que nos acompanhava, obviamente, ele não iria consentir que subisse, esperando que nós compreendessemos. Nessa altura virou-se e deitou um olhar de alto a baixo à dita senhora que nos acompanhava. De facto a Nélia, era assim que ela nos tinha dito que se chamava, não era propriamente o paradigma da ortodoxia na maneira de se vestir e muito menos na forma como estava pintada. A Nélia era uma personagem simpática e divertida que tinha acabado de se juntar ao nosso rebanho num bar ali para os Estados Unidos da América e ostentava naturalmente pinturas de guerra, da sua. Ficámos sérios, muito sérios e o Miguel avança e afirma que não, não compreendíamos e ele que se explicasse rapidamente se fizesse favor, porque se fosse o consumo mínimo nós... (nós nada porque não tinhamos um chavo e salvo erro o consumo mínimo eram 25 contos por cabeça! Era o bluff do costume, mas como connosco até havia sempre alguém que não cheirava a subúrbio, até costumava funcionar!). O que valeu foi que o tipo quis armar ao fino.
- Duvidoso! A senhora, desculpe-me de o dizer assim, mas a senhora tem um aspecto... que digamos... é duvidoso!
Foi a própria Nélia quem se riu e cheia de classe lhe disse - O senhor desculpe mas eu de duvidoso não tenho nada, sou puta e disso está toda a gente bem certa, agora deixe que lhe diga que duvidosas duvidosas serão antes aquelas que já lá estarão em cima! E virando costas saiu em grande estilo num passo largo, a apertar o vison até ao táxi que, chegando naquela altura, parecia ter sido combinado.

Natural

- Mas querida…
- Não e não!
- Mas essencialmente do que não gostaste?
- Ora, do que não gostei… de quase tudo e da historieta, está bom de ver!
- Mas não achas que pode ter sido assim…
- Um disparate pegado, onde é que já se viu!
- Mas então, não te faz sequer pensar?
- Se me faz pensar!? Naturalmente que me faz pensar. Faz-me pensar que não és bom do juízo é o que me faz pensar…
- Mas já viste bem a importância de uma coisa assim, para todos nós?
- E ele a dar-lhe. Então e os vizinhos? Achas porventura que estou disposta a essa vergonha? Até já estou a ver, a sirigaita da Elisabete mais as suas amiguinhas lá da kermesse … já para não falar do bispo… ui, é que nem é bom pensar nisso! Não e não! E agora vê se ganhas juízo e te dedicas a outra coisa qualquer…Ó homem tu sabes tantas coisas… Porque não retomas, por exemplo, aquele outro que estavas a fazer sobre tentilhões?
- Tentilhões. Mais uma vez? Ó querida, tu bem sabes que só penso nisto, toda a minha vida tenho pensado nisto e nada mais me interessa se não isto. Acho que rebento, se não mostrar a ninguém... Só porque tu não queres, ou por causa dos vizinhos, ou do bispo… não é justo! Além do mais as pessoas evoluem...
- Sim querido, eu percebo mas olha lá, pronto, porque é que não retiras aquelas justificações todas que só maçam e deixas ficar as figuras, que são lindas. Assim com uns textozinhos pequeninos. Estão lá coisas tão bonitas. Isso sim, ficava gracioso e além do mais não ofendia a ninguém…
- Tipo enciclopédia ilustrada?
- Isso! A criançada precisa de coisas assim… e a começar pelos teus filhos. Olha que voltaram as diarreias ao Leonardo e o Horácio está outra vez com febre e com aquela tosse irritante.
- Outra vez? Mas que aborrecimento, coitado. Sabes que eu suspeito que, pelo facto de sermos primos, a coisa possa vir daí… eles todos sempre tão doentes…
- Disparate, mais uma das tuas tolices! Ó meu querido só Deus é que sabe, mais ninguém. Nem sei que te diga, eu é que cada vez me convenço mais que tanto tempo embarcado te deixou mareado! Vá homem, não te deixes ir abaixo e lembra-te do que te disse: Nada de aventuras, umas gravuras, uns textos bonitos mas nada daquilo. Naturalmente ninguém, no seu juízo perfeito e nos dias que correm, está interessado numa coisa daquele tamanho.
- Mas tentilhões, melros e demais passarada são quase só o que tenho feito até agora. Uma enciclopédia... ilustrada… Eu precisava era de uma coisa tipo Chaaan!!! Uma coisa em grande… Para acabar de vez com as peneiras dessa cáfila de cretinos…
- Tem juízo homem e vê lá como falas! O que tu precisas é de te tratar, deixa cá ver a testa. Tens febre? Sentes-te bem? Olha para essa cara! E essa barba homem, já não te posso ver com essa barba enorme!
- Além do mais já tinha magicado um título e tudo...
- Um título?
- Sim. Pensei em: «On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life» Ãh, que me dizes?

- Digo-te que vás fazer a barba e vestir as calças que o almoço está na mesa.

Atão?

- Atão, é?
- O quiê?
- Droga pá! Que haberia de ser?
- Sei lá pá!
- Atão mas quéque estás a fazier?
- Fazier o quiê?
- Ò carago, c’o dedo na boca, a esfreganhar?
- Sei lá pá, vi c’os gajos faziam assim nos filmes…
- Deixa lá ber…
- Num é nos dentes ò Saraiva, é nas gengives!
- Cumu?
- É nas gengives pá, olha, assim… tás’a’ber?
- Tá bem tá bem..
- E atão?
- Atão quiê num sei!
- Nein eue!
- Numesabanada!
- Neiamim…
- Cumêcosgajoxabem?
- Seilá fuada-se, mas sabebein nunsabe?
- Fodaxe òSaraiva, sexabe…
- Chamemos o Antunes?
- Deixólástar pá…Tábein!?

Felicidade mal passada

A primeira coisa que comprou foi um grelhador. Há lá coisa melhor que um belo naco de carne grelhada! O sítio era perfeito, uma casinha pequena no alto de um monte com uma vista a perder de vista montes e vales, casarios distantes, a serra ao fundo e o grelhador ao centro. Uns chapéus-de-sol brancos, umas espreguiçadeiras, um frappé e um grelhador na sombra de um choupo frondoso.

A casinha pequena foi crescendo, tornou-se numa casa grande e de uma casa grande nasceu um enorme casarão. O grelhador foi substituído por um barbecue, daqueles com uma grande chaminé, que parecem uma casa em miniatura, com armários e prateleiras, alçapões e janelas. A família cresceu. O minúsculo tanque de rega deu lugar a uma enorme piscina espelho de água azul-céu, ladeada por um bonito deck de madeira exótica corrida.

Nada melhor que o almoço de sábado. Peixes vários, enchidos locais e de terras distantes, carnes de todas as espécies passeavam pelo grelhador e saíam apetitosamente douradas, a brilhar suculentas nos pratos. As crianças corriam pelos campos e as garrafas estupidamente geladas no frappé matavam a sede oportuna que o sal das carnes ou dos peixes deliciosos deixavam na boca. A vida era perfeita. De um grelhador tinha nascido uma magnífica casa de campo onde a semana, a papelada e as chatices não entravam. E se calhava um qualquer assunto menos próprio vir à baila, em meia dúzia de minutos se desvanecia crepitando no grelhador sempre aceso.

De maneira que quando ela lhe confessou que estava a ficar cansada de tantos grelhados e que além do mais os grelhados afinal não seriam muito saudáveis, pois as aminas heterocíclicas – um tipo de composto que se forma nas carnes vermelhas, nas aves e no peixe de churrasco – explicava, estavam na lista de carcinogéneos (ela sempre fora exímia a desmanchar prazeres com martelos pneumáticos da ciência) ele olhou-a com ar desconfiado. Já não era a primeira vez que ela torcia o nariz aos almoços de sábado em volta do grelhador. Há já algum tempo que ela lhe falava dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, um outro grupo de químicos que, afirmava, também surgem na carne cozinhada sobre brasas de carvão. Era sempre a meio do churrasco, quando o que se diz ainda não se consegue dissolver no que se bebeu e a coisa deixava de saber como dantes. Por diversas vezes e sempre que ele suspeitava que a conversa corria o risco de descambar para os tais carbonos hidrociclíclos ou lá o que eram levantava-se bruscamente e avançava para o grelhador revolver as brasas, espicaçar nervosamente o lume, ou então ia à cozinha, fingindo que se esquecera de algo deveras importante.

Incomodado, procurava então informação que pudesse esgrimir tais estocadas assassinas do seu bem-estar. Ficou relativamente contente quando verificou que as aminas heterocíclicas são criadas quando a creatinina, um aminoácido encontrado na carne, se decompõe com as altas temperaturas. Podem formar-se de facto nos bifes dele ou nas suas bifanas quer estivesse a grelhar, como a assar nas brasas ou a fritar na frigideira. Ora o mundo é que está torto e tudo nos faz mal, de uma maneira ou de outra. A dose faz o veneno, já dizia Paracelsus... Havia de lhe referir exactamente isto de uma próxima vez. Mas a alegria foi sol de pouca dura e o argumento revelou-se-lhe frágil e ignorante, como aliás ela própria o apelidou impiedosamente, entre umas garfadas de salada e um gole de vinho.

Sempre que tinha tempo ele continuava então a sua senda de investigador, apostado em derrotar essas teorias infames e demonstrar que o seu estilo de vida era tudo menos ignorante. O problema era que quanto mais lia e estudava mais preocupado ficava. Agora deparava-se com os resultados de um grande estudo epidemiológico do National Cancer Institute sobre o cancro do cólon-rectal que demonstravam, preto no branco para quem soubesse ler, que as possibilidades de a doença se desenvolver estavam estreitamente ligadas ao consumo de carne vermelha, em especial quando grelhada ou bem passada (ainda bem que ele gostava de mal-passada). Quem comia carne grelhada ou assada no churrasco duplica o risco de desenvolver cancro pancreático. Merda! Exclamou. Depois e ainda assim havia um conjunto imenso de recomendações sobre como fazer a carne (para quem fosse doido suficiente!) passando-a primeiro pelo microondas, depois marinada horas a fio em vinagres e limão e por fim envolta em prata perfurada, para que não se expusesse aos fumos. Ah! E nunca usar azeites, óleos ou outras gorduras que pudessem de alguma forma atear o fogo pingando gordura. O ideal seriam carnes magras, bifitos fininhos, tiritas secas sensaboronas e sem ponta de gordura, enfim uma pôrra sem pé nem cu nem bico...

Foram uns dias duros, os que se sucederam a estas descobertas. Uma casa inteira, uma quintarola construída à volta de um grelhador, uma família que tinha crescido alegre com um grelhador ao centro, uma vida feliz e agora isto...

Não faz sentido, acabou por concluir.

Os papéis de divórcio entraram poucos dias depois.

Hoje, sábado, lá está ele na sua herdade entre os choupos, sentado à mesa sobre o guarda-sol branco, com a vista a perder de vista sobre os montes e vales, casarios distantes, a serra ao fundo e o barbecue ao centro. Uma Alvarinho geladamente solícita aguarda a sua vez, meio inclinada dentro do frappé e ele debate-se deliciado com um belo naco de lombo Angus.

Caraças se não havia de ser feliz, ignorante seja, mas feliz!